FREUD Explica #01 - Quem é o "Estranho" e "Inquietante"? (das Unheimlich)
Sigmund Freud (1856-1939) psiquiatra e fundador da Psicanálise.
Nascido na Tchéquia, antigo império Austro-húngaro, Sigmund Freud escreveu em 1919, dentro de sua obra um texto chamado "O Inquietante" (tradução do alemão para o português é por vezes conflitante, pois nem "Inquietante", nem "Estranho" ou "Infamiliar" representam de fato a palavra alemã "Unheimlich"). Uso aqui a versão do Volume 14 de Sigmund Freud da editora Companhia das Letras, intitulada "Histórias de uma Neurose Infantil: 'O Homem dos Lobos'; Além do Princípio do Prazer e Outros Textos (1917-1920)".
Freud inicia seu estudo trazendo uma investigação feita por Schelling. Evidentemente, "Unheimlich" é o contrário de "Heimlich" (familiar) ou mesmo de "Heimish" (nativo). Mas propõe uma nova leitura desse oposto. Para Schelling, "Unheimlich" significa "aquilo que estava oculto mas veio à luz", e a partir desse conceito dado por Schelling, Freud faz uma comparação com o conto do "Sandman", escrito por Hoffman de Offenbach, resumidamente é a história de um garoto, que quando criança, jura ter sido visitado pelo ladrão de olhos, Sandman (Homem de Areia), e uma vez, depois de adulto, entra em paranoia ao ver um homem segurando uma boneca sem os olhos. Nem o homem, tampouco a boneca tem qualquer relação com o rapaz que entrou em surto, não há sequer uma conexão exterior ao rapaz que ligue esses pontos, mas há uma sensação real de inquietude. Segundo Freud, isso seria esse o verdadeiro sentido de "Unheimlich", há no jovem uma sensação, uma lembrança, que está reprimida e diante de um determinado gatilho ela "retorna".
Para o autor, se consideramos "Heimlich" como "familiar", podemos também considerar "Unheimlich" como uma extensão ou sub-categoria daquilo que é familiar (não necessariamente seu oposto), isso pois, o "Unheimlich" não representa nada de novo, nada de diferente, propriamente dito, pois a sensação de estranheza não reside no Outro mas em Si.
Nos falta, talvez, algum exemplo mais concreto para ilustrar o conceito. Theodor Adorno resgata esse escrito de Freud (assim como "O Narcisismo das Pequenas Diferenças") para tentar compreender o nazismo na Europa. Adorno explica que ao projetar no Outro impressões como a de que são promíscuos, maldosos, trapaceiros, gananciosos, etc. na realidade é uma impressão de Si.
Bibliografia:
ADORNO, Theodor W. "A Teoria Freudiana e o Modelo Fascista de Propaganda".
FREUD, Sigmund. "História de uma Neurose Infantil ('O Homem dos Lobos'); Além do Princípio do Prazer e outros Textos". São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BUENO, Sinesio Ferraz. "Dez Lições sobre o Fascismo". Marília, 2021.

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