O que é "O Fascismo Eterno" de Umberto Eco?
O Fascismo Eterno - As Características do Fascismo
Umberto Eco foi filósofo, escritor e semiólogo, mais conhecido pela obra e filme premiado "O Nome da Rosa". Eco também foi testemunha do fascismo italiano e viveu durante boa parte da infância o período de luta e reconquista da Itália pela resistência e posteriormente a retomada por parte dos Aliados durante a Segunda Grande Guerra. Em 1997 publicou o livro "O Fascismo Eterno" (Il Facismo Eterno) que além de reunir alguns relatos, histórias e memórias, trás também uma grande discussão filosófica sobre a formação do pensamento fascista, que deságua na última parte do livro em 14 carácterísticas notáveis do Fascismo e coloca em pauta a necessidade de lutar contra esse "Fascismo Eterno".
É notável que para Eco o Fascismo não é uma filosofia em si, mas uma verdadeira colagem contraditória de filósofos. Por exemplo Mussolini adota um pensamento hegeliano tardio ao falar em "Estado Ético absoluto", esse suposto Estado Ético absoluto proclamado então por seu partido era, nas palavras dele, revolucionário e colocava em curso uma nova ordem, ao mesmo tempo que era patrocinado pelas elites fundiárias conservadoras da Itália. Dentre suas carácterísticas estão:
1) Culto ao Tradicionalismo: O Fascismo cultua a tradição, no ideário dos fascistas estão sempre os pensadores mais tradicionais e em grande parte religiosos. Entretanto fazem isso de forma distorcida misturando-os com termos totalmente diferentes, essa seria a primeira característica do Fascismo Eterno. Por exemplo, citar Santo Agostinho não é em si uma característica do fascismo, mesmo porque até onde se saiba, Santo Agostinho não era fascista, mas o ato de misturar Santo Agostinho com Stonehange, seria em si uma característica do Fascismo Eterno.
2) Recusa da Modernidade: Ser tradicionalista implica diretamente em recusar a modernidade, embora adorassem a tecnologia, os fascistas se negavam à abandonar os valores espirituais conservadores. Na interpretação do filósofo, ao considerar que o Fascismo via como depravação filosófica o Iluminismo e a Idade da Razão, o Fascismo pode ser interpretado como "Irracionalista".
3) A Suspeita do Mundo Intelectual: Os Fascistas sempre tenderam à levantar questionamentos quando aos verdadeiros valores do mundo intelectual. Os intelectuais fascistas estavam encarregados sempre de acusar qualquer valor moderno, intelectualidade liberal ou pensamento divergente como abandono dos valores tradicionais.
4) Desacordo é Traição: Para o fascismo o ato de distinguir á si e as coisas é uma ato da modernidade, portanto uma traição da unidade de pensamento.
5) Contra a Diversidade: O Fascismo se pauta muito no medo da diversidade, é sempre criada a narrativa do intruso, ou seja, o fascismo é sempre racista.
6) Frustração das Classes-médias: Uma das características mais comuns do fascismo é recorrer ao apoio de classes médias frustradas (seja por crise, pressão social ou humilhação política). É nessa classe média frustrada que os fascistas encontram apoio e popularidade.
7) Obsessão pela Conspiração: Há no fascimo uma narrativa de que o grande privilégio que está posto à todos é ter nascido nessa mesma nação. O Fascismo tenta criar o sentimento do "nacionalismo". O modo mais fácil de criar esse sentimento é atacando a própria diversidade, ou seja apelando ou para a Xenofobia ou para a intolerância religiosa.
8) Narrativa Heróica: Eco considera que é essencial que os fascistas (em geral a classe média frustrada) se sintam humilhados pela riqueza ostensiva do "inimigo", mas ao mesmo tempo sintam que podem vencê-lo e conquistar aquilo que lhes seria de direito.
9) Anti-Pacifismo: Não existe, para o fascista, "luta pela vida" mas sim "vida pela luta". Qualquer ato de pacifismo é considerado como concluio com o inimigo. Sempre há um mito criado ao redor da batalha final, seu próprio armageddon.
10) Elitismo Popular: Daqueles que pertenceriam à melhor nação do mundo estão os cidadãos do partido, esses seriam os melhores cidadãos, portanto todo cidadão deve se tornar membro do partido para integrar essa "elite intelectual popular".
11) Culto à Morte: Uma vida heróica merece uma morte igualmente heróica, e assim o desejam, a morte heróica seria um modo doloroso de alcançar a felicidade final. Nota-se que essa impaciência fascista provoca mais frequentemente a morte dos outros.
12) Machismo: Heroísmo e guerra permanente são conceitos difíceis de se lidar para os Fascistas, por isso transferem suas frustrações de "luta" para um desdém da imagem feminina ou de qualquer prática sexual não-tradicional (castidade ou homossexualidade, por exemplo).
13) Populismo Qualitativo: O Fascismo é dotado de um populismo, isto é, ao considerar que o povo exprime suas vontades comuns, se apresenta então como representante dessas vontades populares.
14) Novalíngua: Por fim, os fascistas possuem sua "Novalíngua", que consiste em um léxico pobre e sintaxe elementar, isso tinha como finalidade limitar o desenvolvimento de qualquer pensamento crítico ou elaboração mais complexa de um raciocínio.
Segundo Eco essas características fazem do Fascismo algo Eterno, por isso o termo cunhado como "Fascismo Eterno" (ou também Ur-Fascismo), entretanto o fascismo está sempre fadado à derrota, e tão eterna quanto o Fascismo deve ser nossa luta contra ele. O Fascismo rodeia nossa sociedade, muitas vezes trajado de opinião civil, cada vez em um lugar do mundo, e é nossa tarefa desmascará-lo onde quer que esteja. Novamente, O Fascismo pode ser Eterno, mas é dotado de falhas, que eternas também sejam a Liberdade e a Libertação de um povo.
Notas do Autor: O livro de Eco é excelente e trás de forma bastante intelegível as principais características do Fascismo sob o olhar de alguém que vivenciou o Fascismo de Benito Mussolini. Por mais que eu tenha discorrido sobre as formas do Fascismo citadas no livro, a grande cereja no bolo são os depoimentos e memórias do próprio Umberto, algumas lembranças como a que ele guardava sobre a queda do partido fascista fazem brilhar os olhos, não adianto, portanto, nenhuma das memórias relatadas por Eco, mas recomendo fortemente a leitura do livro, não há arrependimentos.
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