Trabalho sem Emprego vs. Emprego sem Trabalho: Uma Contradição do Século XXI

 Trabalho sem Emprego vs. Emprego Sem Trabalho: Uma Contradição do Século XXI.

 É necessário observar com olhos cuidadosos a relação proletário e trabalho, muito embora ainda haja no imaginário de uma grande maioria o conceito de trabalho de uma sociedade do século XX, onde um indivíduo é devida (e legalmente) empregado, ou seja tem condições e recebimentos previamente estipulados e legalmente assegurados através de registro de ambas as partes, alguns olhares mais atentos já devem ter notado que essa relação de emprego e trabalho é cada vez mais distantes. 

 Não é preciso se distanciar, ou observar a condição de outros países, o próprio Brasil sofre (há consideráveis anos) os efeitos da crescente precarização do trabalho. Podemos, inclusive, tomar um exemplo de cada.

 É difícil nos dias atuais passar em frente ao shopping, ao restaurante ou mesmo na frente de uma lanchonete local e não reparar nas grandes filas de motos paradas, são os trabalhadores de aplicativo. É inegável que trabalham, em muitas ocasiões, mais que oito horas por dia, sem folga, sem fim de semana e principalmente, sem nenhum direito. Fala-se em autonomia, entretanto essa fala é facílmente contestada, uma vez que as empresas (plataformas) tomam por si o direito de vigiar, punir ou desligar cada motorista, entregador ou empregada. Ao serem avaliados pelo cliente, uma simples nota quatro dentro de um total de cinco pode fazer com que ganhem menos. Entretanto essas avaliações são, de certa forma, até brandas perto da relação de tempo de trabalho, as empresas vendem autonomia, e colhem os frutos das jornadas exaustivas, afinal, se oito horas de trabalho não pagam seus custos de vida, isso significa ter de trabalhar nove, dez horas por dia, trabalhar aos fins de semana, feriados, madrugadas, tudo isso por uma "escolha", entre muitas aspas, e esta não por vontade, mas por necessidade. Sobre essa categoria devemos considerar que cumprem como qualquer trabalhador empregado, uma jornada de trabalho exaustiva e precarizada, porém não são empregados, eles seriam ,supostamente, uma espécie de "autônomo regulado", são donos dos meios de trabalho que tem seus lucros subtraidos por uma empresa sob o pretexto de uma organização técnica (que na realidade é apenas espoliação).

 Do outro lado, temos uma outra categoria de trabalho, são aqueles que estão legalmente empregados, entretanto, são contratados sob um regime chamado "Zero-hora" e como o nome adianta, não existem horas pré estabelecidas no contrato (e, não obstante, sem salário pré estabelecido), isso significa que sob esse contrato, no qual o trabalhador receberia de acordo com o tempo de trabalho, há sempre uma possibilidade muito considerável de que ele não seja chamado para trabalhar com a mesma frequência daqueles com contratos de horas estipuladas, o que o coloca na condição de empregado, mas em muitos casos, sem trabalho.

 Muito do que motiva as pessoas à aceitar a precarização do trabalho não se refere somente à venda de filosofias burguesas, ou aos ideais neoliberais de desregulamentar o trabalho, elas aceitam essas condições por medo de não haver trabalho. O Brasil bateu 14% de sua população desempregada em Mar/2017 ou seja era um cenário extremamente propício à infomalidade, entretanto não era tanto problema até que o capital tomasse conta de espoliar as pessoas do trabalho informal ao mesmo tempo que se livra de qualquer obrigação legal. Como Marx cita em "Manuscritos Econômico-filosóficos

"O Capitalista pode viver mais tempo sem o trabalhador que este sem aquele. [...] O Trabalhador tornou-se uma mercadoria, e é uma sorte para ele conseguir chegar ao homem que tem interesse nele. E a procura, da qual a vida do trabalhador depende, depende do capricho do rico capitalista". [MARX, Karl. pg.23 e pg.24]

 O trabalho para o proletário significa sua sobrevivência, portanto, em tempos de desemprego importa mais sua sobrevivência que as condições nas quais o trabalho está posto. A precarização do trabalho é a regra do lucro para o capitalista independente da vida do proletário.

 Restam, infelizmente, mais dúvidas que respostas, como se mobilizam os trabalhadores que sequer conhecem seus "colegas" de profissão? Como se comunicar com os trabalhadores cujo tempo, mais do que para qualquer um, significa dinheiro? É possível uma organização sindical própria? Qual o futuro de um trabalho e de um emprego tão transitório?

Indicações de Leitura:

ANTUNES, Ricardo. "O Privilégio da Servidão: O Novo Proletáriado de Serviços na era digital" - 1 ed. - São Paulo: Boitempo, 2018.

CHOMSKY, Noam. "O Lucro ou as Pessoas? Neoliberalismo e Ordem Global". Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

DECCA, Edgard de. "O Nascimento da Fábrica". São Paulo: Brasiliense 2004.

FONTES, Virgínia. "O Brasil e o Capital-imperialismo: Teoria e História" - 2 ed. - Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2010.

LUXEMBURGO, Rosa. "Greve de Massas, Partidos e Sindicatos". Coimbra: Centelho, 1974.

MARX, Karl. "Manuscritos Econômico-Filosóficos" - 1 ed. - São Paulo: Boitempo, 2004.

NETTO, José Paulo. "Lukács e a Crítica a Filosofia Burguesa". Lisboa: Editora Seara Nova.


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